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sábado, maio 07, 2011

O AVESSO DO AVESSO. OU UM FILME QUE TODOS QUEREM VER, MENOS JOSÉ SARNEY!


A coluna do Nelson Motta no Estadão, que transcrevo após este prólogo, versa sobre o documentário em curta metragem dirigido por Glauber Rocha em 1966, que está no vídeo acima. Estrelando José Sarney, que assume em 1966 o governo do Maranhão. Incrível! Parece ficção, mas é Sarney em carne osso, jovem, 35 anos de idade, bem vestido, o indefectível bigode, discursando num palanque em praça pública, enquanto a câmera dirigida por Glauber eviscera o Maranhão.
O resultado é um chocante contraponto à oratória de Sarney. Isto faz 46 anos! O que é lamentável é que o Brasil continua exatamente o mesmo de há quase meio século. E o que é pior: a sua população à época creio que andava ao redor de pouco mais de 60 milhões de habitantes. Hoje são quase 200 milhões de brasileiros sendo que boa parte habita favelas como a da Rocinha, no Rio de Janeiro, cuja população é maior do que a de Florianópolis, a capital do Estado de Santa Catarina.
Sarney continua hoje com o mesmo bigode, o mesmo jaquetão risca de giz, repetindo a mesma demagogia barata e presidindo o Senado da República. A única novidade é que Sarney é um dos fiadores da permanência do PT de Lula, Dilma, Zé Dirceu e seus sequazes no poder.
O Estado-babá montado pelo PT e o bolsa família se encarregam de atualizar o curta de Glauber e ser ao mesmo tempo o formol que conserva o velho coronel maranhense.
Vejam só! Glauber acreditava que com uma câmera na mão acabaria mudando o cenário do atraso brasileiro. É o paradoxo das conseqüências. Glauber está entre a idiotia esquerdista que levou a estupidez e a arrogância comum dos estúpidos ao poder.
O artigo de Nelson Motta, ao qual me referi no início destas linhas, tem por título 'O Avesso do Avesso'. Leiam que está muito bom. Motta é dos poucos articulistas da grande imprensa brasileira que não se renderam à ditadura do pensamento politicamente correto. E não deixe dever o vídeo! Transcrevo o artigo:
Está bombando no YouTube e provocando acessos de gargalhadas e deboches um filme de sete minutos em preto e branco com o prosaico título Maranhão 66. Aparentemente é um documentário sobre a posse de José Sarney no governo do Estado, feito por encomenda do eleito. Mas é assinado por Glauber Rocha.
Com 35 anos, cabelos e bigode pretos, Sarney discursa para o povo na praça, num estilo de oratória que evoca Odorico Paraguaçu, mas sem humor, à sério, que o faz ainda mais caricato e engraçado. Sobre seu palavrório demagógico, Glauber insere imagens da realidade miserável do Maranhão, cadeias cheias de presos, doentes morrendo em hospitais imundos, mendigos maltrapilhos pelas ruas, crianças esquálidas e famintas, enquanto Sarney fala do potencial do babaçu.
Só alguém muito ingênuo, ou mal-intencionado, poderia imaginar que Glauber Rocha fizesse um filme chapa branca. Em 1964, com 25 anos, ele tinha se consagrado internacionalmente com Deus e o diabo na terra do sol e vivia um momento de grande prestígio, alta criatividade e absoluto domínio da técnica e da narrativa cinematográfica. E odiava a ditadura que Sarney apoiava.
Em Maranhão 66, a narrativa se estrutura na dialética entre as imagens da realidade dramática e a demagogia caricata do jovem político provinciano que está tirando do poder um velho coronel - para se tornar ele mesmo o novo coronel.
O filme dentro do filme é imaginar o susto de Sarney quando o viu. Em vez de filmar uma celebração vitoriosa, Glauber usou e abusou da vaidade e do patrocínio de Sarney para fazer um devastador documentário sobre um arquetípico político brasileiro. E uma pesquisa para Terra em transe, que filmou em seguida e hoje é considerado a sua obra-prima. Sarney foi a base para o líder populista interpretado por José Lewgoy, famoso como vilão de chanchadas.
Glauber dizia que o artista também tem de ser um profeta; mas a sua obrigação é de profetizar, não de que as suas profecias se realizem. O discurso de Sarney e as imagens de Maranhão 66 são os mesmos do Maranhão 2011, num filme trágico, cômico, e, 46 anos depois, profético.

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