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sábado, outubro 16, 2010

ARTIGO: A 'Míriam Cordeiro' da Dilma

Por Nilson Borges Filho (*)

Cheguei um pouco tarde, confesso. Somente agora entendi as palavras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando disse que o dono da Capitania do Maranhão, senador José Sarney, não é uma pessoa comum. Na verdade, Lula estava advogando em causa própria, aproveitando-se de jurisprudência por ele formada. Fosse Lula uma pessoa comum, já teria sido demitido do serviço público por desídia e abandono de emprego.

Faz algum tempo que Lula não aparece em Brasília para trabalhar. Dia sim, dia não, o homem surge em cima de um palanque, esbaforido, suado, um pouco fora de si, sem qualquer cerimônia com a liturgia do cargo, incorporando um teólogo do final dos tempos e dando graças ao “seu” Deus por tê-lo vingado dos maus políticos do Piauí.

A mesa do seu gabinete, onde pretensamente deveria estar despachando, foi tomada pelo pó. E, acredita-se, que ao pó voltará depois que Lula deixar o cargo de presidente. Nesses oito anos de mandato, o gabinete presidencial foi considerado o espaço mais inútil do Palácio do Planalto. O garçon que atende à presidência da República está rindo à toa. Nunca antes na história deste País, um presidente trabalhou tão pouco e deu tão pouco trabalho aos que lhe servem na rotina palaciana. A vadiagem presidencial – sempre alheia a tudo que acontece no andar de cima do seu gabinete - permitiu que a quadrilha liderada por Erenice Guerra arrombasse os cofres da Casa Civil e seu entorno.

O tempo que deveria estar a serviço do contribuinte, que lhe paga o salário e as mordomias inerentes ao cargo, foi dedicado à campanha de sua candidata Dilma Rousseff. Aliás, em total desrespeito ao povo brasileiro, Lula gosta de se gabar que viajou mais em campanha para Dilma do que das vezes em que foi candidato. Mesmo assim, parece que nada vai bem na campanha petista. Os ataques que estão surgindo do bunker de Dilma Rousseff e  endereçados a José Serra são a mais pura demonstração de que o candidato tucano pode  sair vitorioso em 31 de outubro.

O sereno Antônio Palocci, coordenador do comitê de campanha do PT, perdeu espaço para o trio barra pesada - José Dirceu, Ciro Gomes e Aloisio Mercadante – encarregado por Lula para partir para cima de José Serra, de preferência  com arma em punho. O nível da disputa eleitoral, patrocinado pelo comitê de Dilma Rousseff, desceu ao nível da sarjeta com os ataques sistemáticos à Mônica Serra, esposa de José Serra.

No pleito em que Lula perdeu para Collor, surgiu uma senhora, no horário eleitoral do PRN,  acusando o candidato petista de tê-la sugerido fazer aborto de uma gravidez não desejável pelo ex-companheiro. A enfermeira Miriam Cordeiro, soube-se depois, recebeu dinheiro da campanha de Collor para atingir a honra do pai de sua filha, Lurian Lula da Silva. Lula negou e não permitiu que sua filha aparecesse na televisão condenando a própria mãe. Lula perdeu as eleições.

Esse papel feio, protagonizado pela ex-namorada de Lula, não alterou o resultado do pleito. Lamentável, que depois desse ato sórdido, a campanha de Dilma Rousseff se utiliza de uma “Miriam Cordeiro” que acusa Mônica Serra de, quando no exílio nos Estados Unidos, ter provocado um aborto. A “Miriam Cordeiro” da Dilma, do alto da sua dignidade de cidadã brasileira, justificou a acusação movida por interesses – como dizer? – em benefício da verdade. 

(*) Nilson Borges Filho é mestre, doutor e pós-doutor em Direito. Foi professor da UFSC e da UFMG. É articulista colaborador deste blog.

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