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terça-feira, fevereiro 15, 2011

QUEDA DE MUBARAK FOI SÓ O FIM DO COMEÇO

Editorial do jornal O Estado de São Paulo que transcrevo após este prólogo identifica com razão 'sinais contraditórios' emitidos pela cúpula militar que derrubou o ditador Hosny Mubarak acossado por protestos populares que curiosamente foram comemorados pelos aiatolás iranianos, enquanto os inimigos do finado regime continuam apodrecendo nas masmorras. O desfecho da crise continua sendo de difícil previsão enquanto a Irmandade Muçulmana come pelas beiradas. Resta torcer para que o Egito não se torne mais uma teocracia islâmica do tipo iraniano, mas por enquanto esse risco não está afastado. Leiam o editorial intitulado 'Sinais contraditórios':
A cúpula militar egípcia que derrubou o ditador Hosni Mubarak na última sexta-feira, 18.º dia da Revolução de 25 de Janeiro, como resolveram denominá-la os seus participantes, parece ter ido além do que provavelmente desejariam as centenas de milhares de pessoas que haviam transformado a Praça Tahrir, no centro do Cairo, no cenário de um movimento pela instauração da democracia que galvanizou o mundo, comparável na esfera árabe-muçulmana à queda do Muro de Berlim em 1989.

Ainda enquanto ele se recusava a se erguer do trono, o Conselho Supremo das Forças Armadas, do qual são mais conhecidos apenas dois membros - o seu titular, marechal da reserva Hussein Tantawi, durante muito tempo um dos primeiros nomes do regime ditatorial, e o chefe do Estado-Maior das Três Forças, general Sami Hafez Enan -, quebrou o seu costumeiro silêncio ao anunciar solenemente o seu endosso às "legítimas demandas do povo".

E depois que Mubarak deixou claro que não havia entendido a mensagem - assim como não ouvira o clamor popular pela sua partida -, os militares finalmente fizeram o que deles se esperava, despachando o ditador para Sharm El-Sheik. O júbilo popular que se seguiu, decerto levando os demais autocratas árabes a se perguntar qual deles será o próximo, abafou o fato de que o Conselho deixou de transferir o poder para o presidente do Parlamento, o sucessor legal de Mubarak.

Para os egípcios, porém, não era hora de finos pontos de direito constitucional. Não só estavam livres da soturna figura que os oprimia há três décadas, como estavam fartos de saber que o Parlamento, fruto de faraônicas fraudes eleitorais, não passava de uma câmara de eco das vontades do ditador e avalista das violências do regime. Tanto que a sua dissolução e a suspensão da Constituição, consumadas no segundo dia da nova ordem, foram recebidas com naturalidade. De mais a mais, os comandantes militares, representando a única instituição nacional dotada de legitimidade, prometeram eleições em seis meses.

Na véspera, já haviam tranquilizado o mundo ao afirmar que, sob a sua tutela, o Egito cumprirá os seus compromissos internacionais, neles incluído o reconhecimento de Israel - fato que custou a vida a Anwar el-Sadat, o antecessor de Mubarak, e tornou o Egito destinatário de US$ 1,3 bilhão por ano em ajuda militar americana. Mas, pelo que deixou de anunciar, o Conselho emitiu sinais contraditórios em matéria de adesão aos princípios democráticos pelos quais 300 pessoas morreram durante os protestos populares.

O Conselho não soltou os presos políticos, que apodrecem nas masmorras egípcias, nem revogou o estado de emergência em vigor desde 1981, que permitiu a Mubarak encarcerar os seus críticos reais ou presumíveis e manter a imprensa amordaçada. No seu terceiro comunicado, a cúpula militar reiterou que a legislação ditatorial será derrogada "assim que as atuais circunstâncias terminarem".

Os militares escolherão eles próprios os membros do comitê que irá redigir a nova Constituição - a sua única concessão, por enquanto, foi a de acenar com um referendo para ratificá-la. Por fim, mantiveram por ora o Ministério remodelado por Mubarak quando a repressão falhou em calar os protestos. Como diz o primeiro-ministro Ahmed Shafiq, a única diferença é que, em vez de responder ao presidente, o Gabinete responderá ao Conselho. Em suma, por enquanto os militares apenas deceparam o topo da estrutura política egípcia.

Talvez não pudesse ser de outra forma. A autocracia mumificou o sistema de partidos, a mídia e as instituições de governo. A única força política organizada no país é a Irmandade Muçulmana, ilegal desde 1954. E o Exército, com os seus vastos interesses econômicos e escassos pendores liberais, obteve tudo que quis da gerontocracia de Mubarak. Ninguém melhor do que o marechal Tantawi, de 75 anos, que se outorgou a função de chefe de Estado, encarna a mentalidade conservadora do velho estabelecimento militar. Como não podia deixar de ser, a queda do ditador, portanto, foi só o fim do começo. O resto está para ser escrito.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

EGITO CORRE O RISCO DE SE TRANSFORMAR NUMA TEOCRACIA ISLÂMICA. MILITARES SÃO A CHAVE PARA TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA SECULAR.

Em tradução livre e ligeira do inglês publico após este prólogo artigo de Charles Krauthammer, que está no site do The Jerusalem Post. O título no original é 'Rumo a uma aterrissagem suave no Egito'. Torço para que as declarações lacônicas de Hussein Obama sejam apenas parte da estratégia americana sugerida pelo articulista, ou seja, a de facilitar essa suave aterrissagem na pista de democracia. Se isto não acontecer estaremos assistindo a transformação do Egito em uma teocracia islâmica de formato iraniano. Para ler no original em inglês clique AQUI
 

Quem não gosta de uma revolução democrática? Quem não é movido pela renúncia do medo e da valorização da dignidade da pessoa nas ruas do Cairo e Alexandria? A euforia em todo o mundo que tem recebido a revolta egípcia é compreensível. Todas as revoluções são felizes nos primeiros dias. O romance poderia ser perdoado se isso fosse Paris 1789.
Mas não é. Durante estes 222 anos, nós aprendemos como essas coisas podem terminar. O despertar egípcio  carrega a promessa e a esperança e, naturalmente, merece o nosso apoio. Mas só uma criança pode acreditar que um resultado democrático é inevitável. E só um míope otimista pode acreditar que é mesmo o resultado mais provável. Sim, a revolução egípcia é ampla. Mas assim eram as revoluções francesa, russa e iraniana. De fato, a revolução no Irã só conseguiu - o xá foi durante muito tempo contestado pelos mulás - quando os comerciantes, donas de casa, estudantes e secularistas se juntaram para derrubá-lo.
E quem acabou no controle? O mais disciplinado, ideologicamente comprometido e implacável - os islâmicos radicais.

É por isso que o nosso interesse primordial moral e estratégico no Egito é a verdadeira democracia, em que o poder não é entregue para aqueles que acreditam em um homem, um voto, uma vez. Isso seria o destino do Egito se a Irmandade Muçulmana prevalecer.

Esse foi o destino de Gaza, agora sob o domínio brutal do Hamas, uma asa Palestina (ver artigo dois da aliança de fundação do Hamas), da Irmandade Muçulmana.

É-nos dito por analistas ocidentais não se preocupar com a Irmandade, pois provavelmente comanda apenas cerca de 30 por cento dos votos. Esta é a garantia? Em um país onde a oposição secular e democrática é frágil e fraturada após décadas de perseguição, qualquer partido islâmico comandando um terço das regras de votação do país.

As eleições serão realizadas. O objetivo básico dos Estados Unidos será um período de transição que dará uma chance à democracia secular.

A CASA de Mubarak não existe mais. Ele tem 82 anos, injuriado e não disputr a reeleição. A única pergunta é: quem vai preencher o vácuo. Há duas possibilidades principais: um governo provisório das forças de oposição, possivelmente liderada por Mohamed ElBaradei, ou um governo interino liderado pelos militares.

ElBaradei seria um desastre. Como chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, ele fez mais do que ninguém para tornar possível uma bomba nuclear iraniana, dando cobertura para os mulás por anos. (Logo que ele saiu, a AIEA divulgou um relatório impressionante, duro, nu e cru sobre o programa.) Pior, ElBaradei se aliou com a Irmandade Muçulmana. Tal aliança é totalmente desigual. A Irmandade tem organização, disciplina e apoio generalizado. Em 2005, ganhou de 20% dos assentos parlamentares.

ElBaradei não tem base política, eleitorado e história política. Ele viveu no estrangeiro durante décadas. Ele tem menos de um pedido de residência para o Egito do que Rahm Emanuel foi para Chicago. Um homem sem circunscrição aliada a um partido politicamente organizado e poderoso nada mais é que uma figura, um idiota útil, que a Fraternidade vai dispensar quando deixar de precisar de um homem de frente cosmopolita. Os militares egípcios, por outro lado, representam a instituição mais estável e importante do país. É pró-ocidental, e com razão suspeitas da Irmandade. E é muito respeitado, levando o prestígio do "Movimento dos Oficiais Livres" de 1952  que derrubou a monarquia, e a guerra de outubro de 1973, que restaurou o orgulho dos egípcios juntamente com o Sinai.

A instituição militar é o melhor veículo para guiar o país para eleições livres nos próximos meses. Se os militares fizerem isso com Mubarak no topo ou com o vice-presidente Omar Suleiman, ou talvez com algum tecnocrata que não desperta a ira entre os manifestantes, não importa para nós. Se o Exército calcula que sacrificar Mubarak (através do exílio) irá satisfazer a oposição e pôr fim à instabilidade, que assim seja.

O objetivo primordial é um período de estabilidade durante o qual os secularistas e outros elementos democráticos da sociedade civil poderão se organizar para as próximas eleições.

ElBaradei é uma ameaça. Mubarak vai embora de um jeito ou de outro. Os militares são a chave. Os Estados Unidos devem dizer muito pouco em público e fazer tudo que o podem nos bastidores para ajudar os militares, o que já é  alguma coisa de um tiro longo: a democracia egípcia.

sábado, fevereiro 05, 2011

DIPLOMATA ISRAELENSE FAZ ANÁLISE SENSATA SOBRE CRISE EGÍPCIA E DENUNCIA O IRRESPONSÁVEL DESATINO DE OBAMA

Há uma boa entrevista na Folha de São Paulo deste sábado, concedida pelo diplomata israelense Dan Gillermann. Recomendo a leitura para quem deseja ter uma visão mais clara e realista sobre o que ocorre no Egito e qual é o caminho mais sensato a ser tomado. E, como era de se esperar, os Estados Unidos sob batuta podre do politicamente correto Hussein Obama, já cometeu um desatino.  Vale a pena ler esta entrevista do experiente Dan Gillermann:
O presidente dos EUA, Barack Obama, teve uma reação amadora e prematura ao defender a saída do ditador Hosni Mubarak, o que fez aumentar a incerteza no Egito.
A opinião é de Dan Gillerman, embaixador de Israel na ONU entre 2002 e 2008, que conhece bem os personagens cotados para conduzir o Egito pós-Mubarak.
Ela reflete a ansiedade da maioria dos israelenses, sobretudo pela possibilidade de o poder cair nas mãos da Irmandade Muçulmana.
Para Gillerman, o Egito não está pronto para a democracia, e a saída mais segura da crise é uma transição gradual sob chefia do Exército.

Folha - Dos cenários, qual o melhor para Israel?
Dan Gillerman - O melhor cenário, não só para Israel mas também para o Egito e a região, é transição cuidadosa e gradual. Não se faz democracia do dia para a noite. O Egito não tem nem a cultura nem as instituições para isso.
O melhor seria um período de transição em que o Exército, liderado pelo general Omar Suleiman, levasse a um regime democrático. Conheço bem Suleiman e o respeito muito, ele tem vasta experiência e seria um bom nome para a transição. Mas cabe aos egípcios decidir.

Como o sr. avalia o comportamento dos EUA?
O presidente Obama cometeu um grande erro logo no início ao descartar tão rápido o presidente Mubarak, deixando-o à deriva. É uma mensagem extremamente perigosa para outros aliados dos EUA, que também temerão ser abandonados.
Se um aliado como Mubarak, com tantos anos de cooperação com os EUA, pode ser descartado do dia para a noite, o que outros países podem esperar? Obama teve uma reação prematura e amadora. Contribuiu muito para aumentar a incerteza.
O Oriente Médio vive hoje um terremoto, seu momento mais perigoso e dramático em 40 anos. Se o Egito cair nas mãos de extremistas, como a Irmandade Muçulmana, a situação ficará terrível, especialmente para Israel, que já tem o Hamas em Gaza e o Hizbollah no Líbano, mas também para a região inteira.

O sr. considera provável que o Egito pós-Mubarak seja controlado pela Irmandade?
Não parece haver liderança organizada por trás da revolta no Egito. As duas únicas forças organizadas no país são o Exército e a Irmandade Muçulmana. Por isso, tudo depende muito do Exército. Se a Irmandade prevalecer, acho que será péssimo para o Egito -não creio que seja algo que a maioria da população deseje.

O acordo de paz entre Israel e Egito corre perigo?
Espero que não. O mesmo medo surgiu há 30 anos, quando o presidente Anwar Sadat foi assassinado. Muitos apostavam na revogação do acordo, que não ocorreu.
Se a Irmandade chegar ao poder o risco aumenta, pois eles já defenderam a revogação. Seria um erro terrível para o Egito e todo o Oriente Médio; esse acordo é um pilar da estabilidade regional.

Mohamed ElBaradei, que surge como possível liderança, sempre foi muito crítico a Israel. Com ele no poder as relações mudariam?
Conheço bem ElBaradei, trabalhei com ele quando era chefe da Agência Internacional de Energia Atômica e acho que ele poderia ter sido mais eficiente para evitar que o Irã desenvolvesse seu programa nuclear. Se chegar ao poder, espero que mantenha uma posição responsável também em relação a Israel.

Israel sempre criticou os vizinhos pela falta de democracia. Não deveria estar apoiando esse movimento?
Se o Egito se tornar um país democrático, será ótimo, mas o processo deve ser conduzido com extremo cuidado. Espero que a região caminhe para a democratização, mas há um risco enorme de que vá para o lado oposto, a radicalização islâmica.
Infelizmente, quando olhamos o mundo árabe, não vemos uma única democracia. Ao mesmo tempo, sabemos o que aconteceu com os palestinos. Quando houve eleições, em vez de criar democracia, levaram ao poder o Hamas, um grupo terrorista que não aceita o diálogo.