Por Nilson Borges Filho (*)
São sete horas de uma manhã chuvosa de uma segunda-feira sem graça, como muitas que acontecem no curso dos anos. Estamos em 2011. Lá fora faz um calor de quase 30 graus. Lula, depois de uma noite mal-dormida, em consequência de um acúmulo de álcool no fígado, acorda invocado.
Levanta-se resmungando por causa do tempo ruim, acorda dona Marisa Letícia e decide: “vamos para Brasília, de onde nunca deveríamos ter saído, para dar um esculacho naqueles senadores ineptos do PT e uma dura na Dilma, que prostrada naquele palácio deixa a oposição levar o nosso Palocci ao sacrifício”.
Afinal - comentando para si mesmo o ex-presidente - “o Palocci fez o que tudo mundo faz; e não vejo nada de mais nisso”. Tirou o terno amarrotado do armário, ainda com um cheiro forte de naftalina, escolheu uma gravata bem chamativa e mandou ver: “Galega – gritando da cozinha - liga para o motorista e avisa que vamos para o aeroporto e de lá pegamos um avião para Brasília”.
Marisa, contrariada, jogou um par de roupas na mala, deu um trato no visual e questionou Lula: “voltamos logo ou vamos para ficar”? Lula coçou a barba, pensou .... pensou e, irritado, comentou “depois a gente trata disso, Galega”.
Ainda no trajeto para o aeroporto ligou para Gilbertinho – Secretário Geral Da Presidência – para reunir os companheiros, pois tinha muito o que tratar com essa gente.
Em Brasília, a presidente Dilma Rousseff, saindo de uma pneumonia dupla, andava de um lado para outro no gabinete residencial, apresentando um quadro clínico nada favorável, aguardava a chegada do chefe.
Horas antes, Dilma tinha sido acordada pela mordomia do Palácio do Alvorada, de quem recebeu a notícia de que Lula estava voando para Brasília e que se cuidasse porque o homem estava invocado.
A partir desse momento, nunca na história deste País um presidente da República foi tão desqualificado pelo seu antecessor. Lula não teve o menor cuidado com as condições de saúde da presidente e a mínima compostura ética com a liturgia que o cargo de Presidente exige, mesmo que a pessoa que o ocupe – no caso de Dilma - esteja fragilizada politicamente. Pois o ex-presidente, inoportunamente, convocou aliados, destratou companheiros, se exibiu para as câmeras de televisão, estampando um largo e gostoso sorriso nos lábios, como se dissesse: agora quem anda nesta porcaria de País (usando a mesma expressão utilizada pelo empresário que deu dinheiro para o Palocci) é o Lulinha aqui.
Os bajuladores – como os há – no entorno do ex-presidente, embasbacados com a proximidade do chefe, se desmanchavam de rir. Logo após reunir-se com os senadores petistas e passar-lhes uma esculhambação, Lula se dirigiu à residência presidencial e no seu velho estilo deixa-que-eu-chuto emendou: “Dilma sai já daí e vá para as ruas defender o Palocci”.
Dilma, que deve o cargo a Lula, entre uma e outra tossida fez o que seu chefe mandou. Enquanto isso, a base alugada exigia mais cargos para não apoiar a CPI do paloccigate. Petistas de carteirinha, a exemplo de Berzoini e João Paulo Cunha, que Dilma havia colocados para correr, passaram a colocar as manguinhas de fora, pedindo cargos para os afilhados de sempre.
Lula humilhou a presidente. Dilma está doente e politicamente frágil. Palocci respira por aparelhos. A única esperança que resta ao País é que Lula, mesmo permanecendo invocado, mantenha-se sóbrio.
(*)Nilson Borges Filho é doutor em direito, professor e articulista colaborador deste blog.
