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segunda-feira, maio 30, 2011

ARTIGO: Lula está invocado!


Por Nilson Borges Filho (*)
São sete horas de uma manhã chuvosa de uma segunda-feira sem graça, como muitas que acontecem no curso dos anos. Estamos em 2011. Lá fora faz um calor de quase 30 graus. Lula, depois de uma noite mal-dormida,  em consequência de um acúmulo de álcool no fígado,  acorda invocado.

Levanta-se resmungando por causa do tempo ruim, acorda dona Marisa Letícia e decide: “vamos para Brasília, de onde nunca deveríamos ter saído, para dar um esculacho naqueles senadores ineptos do PT e uma dura na Dilma, que prostrada naquele palácio deixa a oposição levar o nosso Palocci ao sacrifício”.
 
Afinal - comentando para si mesmo o ex-presidente - “o Palocci fez o que tudo mundo faz; e não vejo nada de mais nisso”. Tirou o terno amarrotado do armário, ainda com um cheiro forte de naftalina, escolheu uma gravata bem chamativa e mandou ver: “Galega – gritando da cozinha - liga para o motorista e avisa que vamos para o aeroporto e de lá pegamos um avião para Brasília”.

Marisa, contrariada, jogou um par de roupas na mala, deu um trato no visual e questionou Lula: “voltamos logo ou vamos para ficar”? Lula coçou a barba, pensou .... pensou e, irritado, comentou “depois a gente trata disso, Galega”.

Ainda no trajeto para o aeroporto ligou para Gilbertinho – Secretário Geral Da Presidência – para reunir os companheiros, pois tinha muito o que tratar com essa gente.

Em Brasília, a presidente Dilma Rousseff, saindo de uma pneumonia dupla, andava de um lado para outro no gabinete residencial, apresentando um quadro clínico nada favorável, aguardava a chegada do chefe.

Horas antes, Dilma  tinha sido acordada pela mordomia do Palácio do Alvorada, de quem recebeu a notícia de que  Lula estava voando para Brasília e que se cuidasse porque o homem estava invocado.

A partir desse momento, nunca na história deste País um presidente da República foi tão desqualificado pelo seu antecessor. Lula não teve o menor cuidado com as condições de saúde da presidente e a mínima compostura ética com a liturgia que o cargo de Presidente exige, mesmo que a pessoa que o ocupe – no caso de Dilma - esteja fragilizada politicamente. Pois o ex-presidente, inoportunamente, convocou aliados, destratou companheiros, se exibiu para as câmeras de televisão, estampando um largo e gostoso sorriso nos lábios, como se dissesse: agora quem anda nesta porcaria de País (usando a mesma expressão utilizada pelo empresário que deu dinheiro para o Palocci) é o Lulinha aqui.

Os bajuladores – como os há – no entorno do ex-presidente, embasbacados com a proximidade do chefe, se desmanchavam de rir. Logo após reunir-se com os senadores petistas e passar-lhes uma esculhambação, Lula se dirigiu à residência presidencial e no seu velho estilo deixa-que-eu-chuto emendou: “Dilma sai já daí e vá para as ruas defender o Palocci”.

Dilma, que deve o cargo a Lula, entre uma e outra tossida fez o que seu chefe mandou. Enquanto isso, a base alugada exigia mais cargos para não apoiar a CPI do paloccigate. Petistas de carteirinha, a exemplo de Berzoini e João Paulo Cunha, que Dilma havia colocados para  correr, passaram a colocar as manguinhas de fora, pedindo cargos para os afilhados de sempre.

Lula humilhou a presidente. Dilma está doente e politicamente frágil. Palocci respira por aparelhos. A única esperança que resta ao País é que Lula, mesmo permanecendo invocado, mantenha-se sóbrio.
(*)Nilson Borges Filho é doutor em direito, professor e articulista colaborador deste blog.

quarta-feira, maio 25, 2011

ARTIGO: Paloccigate

Por Nilson Borges Filho (*)

O enriquecimento repentino e não explicado do ministro Antônio Palocci coloca o  ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o principal articulador político do governo de Dilma Rousseff .

A permanência do Chefe da Casa Civil e os apoios públicos de parlamentares da “base alugada” não refletem, exatamente, o que se passa internamente no PT. Declarações públicas que tentam minimizar a atual crise não quer dizer, necessariamente,  que exista um desejo explícito  pela manutenção de Palocci. 

Tem muita gente dentro do governo torcendo para que o ministro se desidrate politicamente, a ponto de se tornar refém de parlamentares que dão sustentação ao governo. Não é segredo para ninguém – muito menos para petistas - que Palocci não era o nome preferencial de Dilma para ocupar a principal pasta do seu governo.  

Lula convenceu a presidente que Palocci seria o melhor nome para articulador político do seu governo, pois transita bem entre os diversos partidos, inclusive da oposição, e tem credibilidade junto ao patronato brasileiro. Dilma, que faz de tudo para não contrariar seu inventor, manteve Palocci e de quebra aceitou Gilberto Carvalho na Secretaria Geral, Mantega na Fazenda e adotou Fernando Haddad como ministro da Educação. 

Não bastasse isso, Dilma teve que engolir o deputado Rui Falcão como presidente nacional do PT, a quem detesta silenciosamente. Ao assumir a coordenação política do governo federal, Lula enfraquece politicamente Dilma Rousseff. 

O ex-presidente aposta que o sucesso da presidente é, na verdade, o seu sucesso. Mas, se sua escolhida não se sair bem, Lula mantém a aposta que será o principal nome do PT e aliados para 2014. Ricardo Berzoini e o mensaleiro João Paulo Cunha torcem pela queda do ministro Palocci, creem num esvaziamento político da presidente e pensam que Lula passará a dar as cartas no governo. 

Com isso farão o que mais gostam: repartir, entre seus apaniguados, diretorias de estatais e de fundos de pensão com orçamentos polpudos. Decididamente,  Dilma tem se insurgido contra o  aparelhamento das estatais pelo neo-peleguismo. A rigor, o paloccigate surgiu da luta política de “cachorro  grande” dentro do próprio PT. E foi daí que se abasteceu a reportagem da Folha de São Paulo, para fazer a matéria que tratou do enriquecimento de Antônio Palocci. 

Não pensem que estão sendo sinceros, os que defendem publicamente o ministro da Casa Civil. A ideia é promover  a sua saída, mais ou menos honrosa, antes que estilhaços da crise atinjam a arrecadação de fundos da campanha de Dilma Rousseff. A maior preocupação de Lula – caso não se estanque a sangria de Palocci – consiste no fato de que a crise está se aproximando de alguns amigos próximos e de gente da sua própria família.  

A presidente está fragilizada não só politicamente;  sua saúde está trazendo preocupações aos seus auxiliares de confiança.  Foi grave a recaída de Dilma. E não são poucos, entre os petistas e aliados, os que torcem pelo pior. 

Uma fonte me confidenciou que a crise foi criada dentro do PT e que a estratégia é a de vinculá-la à oposição para o público externo. Internamente, a estratégia – disse-me ele – é pela guerra de posições, no mais exato conceito gramsciano. 

A informação publicada pela Folha de São Paulo, edição de hoje, de que a Caixa Econômica Federal comunicou à justiça, que a quebra do sigilo bancário do caseiro partiu do gabinete de Palocci, foi passada por gente do PT. É tudo que Palocci  gostaria que não viesse a público.

(*) Nilson Borges Filho é doutor em Direito, professor e articulista colaborador deste blog