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terça-feira, fevereiro 14, 2012

ESCRITOR PORTUGUÊS DETONA PROFESSOR SAFATLE

O escritor português João Pereira Coutinho, colunista da Folha de S. Paulo escreveu um artigo arrasador que fez picadinho de Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP (vejam só). É que Safatle não concordou com uma afirmação de Coutinho relacionada ao conflito árabe-israelense e o fustigou. Foi o mesmo que mexer num vespeiro. Coutinho produziu então o artigo intitulado "Resposta a Vladimir Safatle" que está no site da Folha, mas que reproduzo na íntegra após este prólogo, até para que fique registrado aqui no blog.
O professor Safatle, que faz parte da bandalha comunista, deve saber que eu não admito, como todos os leitores aqui do blog já perceberam, que ninguém ouse assacar contra Israel e o povo judeu. Todas as pessoas inteligentes sabem que não há condições de negociar com terroristas. E os árabes ou palestinos ou o raio que os parta, são todos terroristas fanáticos que desejam varrer Israel do mapa.
E o Safatle deve saber também que Israel reagirá à altura a toda e qualquer ameaça. Calcula-se que Israel tenha no mínimo mais de 200 ogivas nucleares e fará um excelente uso desse poderoso arsenal bélico. Ou alguém imagina a possibilidade de um novo pogrom?
O artigo de Pereira Coutinho está na medida certa. Não deixou pedra sobre pedra. Leiam:
Nada tenho contra a ignorância. Na melhor tradição socrática, sei que a ignorância é a base de qualquer conhecimento válido.
Coisa diferente é a ignorância atrevida; ou a má-fé intelectual de quem falsifica os factos para construir uma narrativa "apropriada".
Vladimir Safatle é um caso: dias atrás, escrevi nesta Folha que o seu texto sobre o conflito israelense-palestino revelava desconhecimento sobre aspectos básicos do problema, que qualquer um dos meus alunos aprende no 1º ano de faculdade.
Lendo a resposta de Safatle à minha resposta, vejo que me enganei --e devo um pedido de desculpa aos leitores.
Safatle não revela apenas desconhecimento; revela desconhecimento, desonestidade e um desagradável traço de grosseria.
Sobre a grosseria, digo apenas isto: no meu texto, em nenhum momento teço considerações pessoais sobre Safatle. Não há uma linha sobre a sua ascendência cultural; e nunca me passaria pela cabeça atribuir-lhe qualquer maleita psiquiátrica.
Que Safatle tenha evocado a minha condição de português para, alegadamente, eu não entender certas palavras (no fundo, um velho clichê racista) e levantado suspeitas sobre as minhas "alucinações negativas", eis uma postura que define a criatura.
Em condições normais, não haveria resposta ao texto de Safatle. Mas, por respeito aos leitores da Folha, gostaria de esclarecer alguns pontos sobre a "polêmica".
Em primeiro lugar, Safatle afirma que um "muro" é um muro e que eu, de forma demente, teria transformado o Muro (com maiúscula) em "barreira de segurança". Para que não restem dúvidas, mantenho o que disse: a parte em cimento da "barreira de segurança" da Cisjordânia constitui apenas 5% da totalidade dessa barreira (que, na verdade, é mais uma cerca que outra coisa).
Isto não é um pormenor; é uma forma de tratar as palavras (e a realidade) com um mínimo de decência. Bem sei que é mais dramático afirmar que Israel construiu um Muro ("o Muro da vergonha", "um novo Muro de Berlim" etc. etc.) para separar os israelenses dos palestinos. Lamento: Israel apenas construiu esse Muro quilométrico na retórica de Vladimir Safatle.
Uma vez estabelecidos os factos, convém lidar com as implicações: a "barreira de segurança" vai além das fronteiras pré-1967 e anexa território alocado aos palestinos? Verdade.
Mas não é a "barreira de segurança" (ou os assentamentos na Cisjordânia, já agora) que impede uma solução para o conflito e a existência de um estado palestino que inclua a totalidade de Gaza e a (quase) totalidade da Cisjordânia (já lá iremos).
Israel retirou de Gaza em 2005 e, para o efeito, evacuou povoações inteiras (Netzarim, Morag, Dugit etc.). Aliás, a evacuação não se limitou a Gaza; incluiu também outras povoações na Cisjordânia, como Ganim ou Homesh.
Nenhuma novidade. O mesmo já sucedera depois dos acordos de Camp David (em 1979) quando a paz com o Egito levou Israel a desmantelar a totalidade dos assentamentos no Sinai.
Dito de outra forma: nem os assentamentos, nem a "barreira de segurança", ambos removíveis por definição, são os verdadeiros obstáculos da paz.
E quando, mais acima, escrevi sobre a possibilidade de um estado palestino que inclua a totalidade de Gaza e a (quase) totalidade da Cisjordânia, nem esse "quase" é um obstáculo real: o
Plano Clinton já previa que os 94%-96% da Cisjordânia palestina seriam completados por 6%-4% de território israelense anexado a Gaza. Mas nem isso levou Arafat a aceitar um acordo histórico para os palestinos.
E Arafat não aceitou o acordo porque exigiu o regresso dos 4 milhões de refugiados palestinos (tradução: o regresso dos filhos dos filhos dos filhos dos refugiados originais) a Israel, e não ao novo estado palestino, como seria lógico.
Com imensa bondade, Safatle concorda que esse regresso em massa seria um suicídio demográfico e cultural para Israel. Mas depois pergunta por que motivo não se tenta encontrar uma solução de compromisso que passe pela "absorção de uma parte e a compensação financeira dos demais".
Se Safatle tivesse lido alguma coisa a respeito, ele saberia que "absorção de uma parte" e "compensação financeira dos demais" foi precisamente o que foi proposto por Ehud Barak em Camp David.
Para sermos precisos, Barak propôs absorver uma parte dos refugiados palestinos ao abrigo de um programa de reunificação familiar; e propôs também compensações no valor de 30 bilhões de dólares. Arafat recusou na mesma.
Por último, Safatle horroriza-se com a minha frase: "a existência de um Estado autônomo e respeitoso das fronteiras de 1967 tem sido sucessivamente proposto pelas lideranças israelenses desde 1967".
Não entendo o horror. Se esquecermos que, antes da Guerra dos Seis Dias, foram sempre os árabes a recusar a existência de um estado palestino junto a um estado israelense (1917, 1937, 1948), o que dizer depois da Guerra?
Depois da Guerra, ainda em 1967, quando Israel estava disposto a trocar a terra conquistada por paz, reconhecimento e negociação, a resposta árabe ficou célebre na Cúpula de Cartum, que a história registou para a posteridade como a "Cúpula dos Três Nãos": não à paz com Israel; não ao reconhecimento de Israel; e não à negociação com Israel.
Apesar de tudo, um estado palestino respeitoso das fronteiras de 1967 (embora, como referi, implicando "trocas de terra" em que Israel cederia parcelas do seu território para compensar perdas na Cisjordânia) voltou a ser oferecido em 2000, em Camp David; e retomado por Ehud Olmert, em 2008. A resposta árabe foi sempre a mesma: não, não e não.
É pena. Os palestinos, que Safatle me acusa de ignorar em tom melodramático, mereciam melhor destino.
Mereciam, por exemplo, que as lideranças palestinas não tivessem desperdiçado as várias oportunidades de alcançarem um estado palestino independente depois de 1967.
E mereciam que, antes de 1967, quando Gaza e a Cisjordânia estavam sob domínio egípcio e jordano, respectivamente, os "irmãos árabes" tivessem integrado os refugiados palestinos nas suas sociedades.
Exatamente como Israel integrou os milhares de refugiados judeus que, durante a Guerra da Independência de 1948, partiram ou foram expulsos dos países árabes da região.
Discutir o conflito israelense-palestino, ao contrário do que pensa Vladimir Safatle, é um pouco mais complexo do que soltar umas interjeições adolescentes ("um muro é um muro!", "há situações inaceitáveis sob quaisquer circunstâncias!" etc.) que talvez impressionem alguns alunos pós-púberes.
Infelizmente, senhor professor Safatle, não me impressionam a mim.

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terça-feira, novembro 01, 2011

CINISMO E FALÊNCIA DA CRÍTICA: UM PAÍS DE IDIOTAS E PERVERSOS!


Este vídeo reproduz gravação de entrevista do professor da USP, Vladmir Safatle, que também escreve na Folha de São Paulo. Na edição desta terça-feira, seu artigo versa sobre o episódio que envolve a reação de estudantes à ação da polícia no campus da USP que, como todos sabem, vive assediada pelos traficantes de drogas.
 
Não será preciso mais do que este vídeo e a íntegra do artigo que Safatle escreve na Folha desta terça-feira para que se possa entender porque o Brasil é um país dos mais atrasados do planeta.

 
E por falar em USP relembro um fato que jamais esqueço. Lá por volta de 1995, quando cursava o Mestrado em Direito na UFSC, fui a São Paulo para pesquisas nas bibliotecas da Faculdade de Direito e das Ciências Sociais da USP. No velho prédio do Largo de S. Francisco, encontrei muita coisa que precisava. Entretanto, fiquei impressionado com o desleixo e a sujeira, sendo impossível o uso das instalações sanitárias.

 
Depois fui ao campus e lá, depois de ir à biblioteca de ciências sociais, procurei um local onde pudesse tomar um café e me alimentar. Fiquei apavorado com a sujeira e a imundice. Não tomei sequer um cafezinho porque não havia as mínimas condições de higiene naqueles locais. No fundo dos bares, na rua, havia montes de engradados de bebidas já consumidas exalando aquele odor caracterísmo. Isto foi no final dos anos 90. 


Pelo que vi nas reportagens sobre os arruaceiros que ocuparam prédio da Filosofia da USP, suponho que aquele cenário imundo que presenciei nessa que é a maior e mais importante universidade do Brasil, não tenha mudado. Com toda certeza está pior, o que certamente levou as autoridades acadêmicas a solicitar a presença permanente da polícia no campus.
 
Transcrevo o artigo de Safatle para que vocês tirem suas próprias conclusões. O primeiro período do título do post reproduz o título de livro desse professor e que é objeto da entrevista que concede no vídeo acima.
Veio a calhar. Já o título de seu artigo é Abaixo da lei. Leiam:

"Ninguém está acima da lei." Com esta frase, o governador Geraldo Alckmin procurou justificar o fato de, mais uma vez, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP ser alvo de bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral lançadas pela Polícia Militar.

No entanto talvez fosse o caso de dizer que ninguém deveria ser tratado dessa forma pela lei. Um delito menor, como o porte de um cigarro de maconha, não justifica a presença de um batalhão da PM em ambiente escolar.
Trata-se de um delito que nem sequer é considerado como tal em vários países europeus e que vem sendo objeto de discussões sobre sua descriminalização por parte de pessoas insuspeitas de agirem em favor do tráfico internacional, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Não se trata aqui de fazer apologia às drogas. O ambiente universitário não é um território livre e não deve ser espaço para alunos fazerem uso de maconha, mas a abordagem para problemas dessa natureza vista na quinta está longe de ser a adequada. Mais uma vez, a PM demonstra sua total inaptidão para mediar conflitos sociais e manifestações estudantis. Estudantes saíram, mais uma vez, feridos.
Mas abaixo desse uso da PM há outro problema. A atual reitoria tem dificuldades de dialogar com todos os setores da comunidade acadêmica. Ela deveria lembrar que foi escolhida à revelia da maioria, já que a nomeação do atual reitor foi obra do ex-governador José Serra que, pela primeira vez desde Paulo Maluf, resolveu escolher o segundo colocado em uma lista tríplice.
Esperava-se que, devido a esse deficit de legitimidade, a atual reitoria demonstrasse mais habilidade na criação de consenso. Não foi isso o que aconteceu. Vários setores da universidade alertaram para o caráter delicado da presença da PM no campus. Mas nenhum desses setores foi convidado a discutir com a reitoria seus pontos de vista.
A PM se justifica se for o caso de coibir crimes como o assassinato de um estudante, há alguns meses.
Mas ela não está lá para correr atrás de aluno com cigarro de maconha ou para mostrar aos estudantes que a corporação não aceita provocações. Há maneiras mais inteligentes de resolver problemas banais como esse.
A tal episódio somam-se problemas como a querela da reitoria com a Faculdade de Direito, a construção de um monumento aos perseguidos pela "revolução" de 1964, entre outros.
A USP precisa de pessoas capazes de desativar problemas e conflitos, e não de acirrá-los. A FFLCH, que deu ao país intelectuais do porte de Sérgio Buarque de Holanda, Milton Santos, Bento Prado Jr., Florestan Fernandes e Antonio Candido, merece mais cuidado.


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